Estatuto bíblico do humano

Estatuto bíblico do humano           

Ageu Heringer Lisboa

 

A compreensão acerca do que é especificamente humano é tema de debate nos vários campos do conhecimento Destaque para a filosofia e antropologia filosófica e teológica. Entre muitas correntes encontram-se filósofos que pressupõem uma essência arquetípica eterna do humano (Platão). Divergindo dos essencialistas, tem-se os que afirmam  a existência humana marcada pela história e esta como criadora do humano (Feuerbach, Marx).  Outras construções filosóficas não ignoram esta bipolaridade essencialismo- historicismo e tampouco se fixam no binarismo. Propõem uma abordagem trinitária, com uma tensão mais abrangente e fecunda.

 

Partindo de nossa concretude corpórea, nossa constituição física pressupõe tanto uma diferenciação quanto uma semelhança com outras espécies. Biologicamente tem-se um contínuo filogenético que aponta nossa coextensividade com os animais, com os quais compartilham do mesmo habitat global. Isto revela um princípio econômico,  uma matéria comum, a physis, adama, terra, que compartilham solidariamente. Contudo os humanos se impuseram sobre os demais seres, distinguindo-se soberanamente sobre a terra. E , infelizmente, predatoriamente, colocando em risco a sobrevivência do planeta  e seus moradores. O que fazemos com a terra e a água, com os animais e plantas se reflete sobre o todo o planeta.

 

Uns apontam simplesmente nossa corticalidade como determinante desse status – a redução biologizante evolucionista; outros englobam a corticalidade e a pequena fração de genes diferenciados como traço distintivo do homo sapiens sapiens sim, mas sob a direção do fator espiritual, de ordem simbólica – os criacionistas. O ruah, o nefesh, sopro espírito divino expirado no ser humano desde o início, aponta nossa existência como essencialmente espiritual, condicionada sócio-ambiental- historicamente e potencializada limitada pela rica instintividade. Somos, portanto, seres sexuados, socializados, religiosos, políticos e históricos, humanizado através de instâncias culturais.

 

Derivado de sua natureza espiritual,  apresenta-se como Ser-de-razão, sujeito moral, portador de subjetividade desejante, criativo e existindo na ordem do simbólico. É consciente de seus poderes criativos e destrutivos, e os  instrumentaliza intervindo em sua própria  natureza e no meio ambiente.  Consciente da finitude incomoda-se com a morte e aspira a eternidade. A busca da transcendência tem seus registros desde a pré-história, atravessando os séculos na forma de sonhos, visões, mitologias, rituais. Sempre aparece por meio de interrogações sobre a identidade (quem somos?), origem (como surgimos?) e destino (para onde vamos?). Encontrará, ou criará, variadas respostas ou propostas de sentido, refletindo cosmovisões distintas.

 

Numa perspectiva bíblica, feito à imagem e semelhança do criador, é portador da Imago-Dei. Segundo Ouaknin [Biblioterapia, Ed.Loyola] , o termo Deus e o Humano tem o mesmo peso semântico na gematria hebraica, sinal de dignidade suprema para o humano. Colocado no caminho do passado e do futuro, constrói sua  identidade pessoal continuamente. Esta não é definitiva, fixa, impositiva, kármica, mas infinitiva, futurizável, aberta. Eu ani – eu anoki (mesmidade e mudança). Permanece um horizonte de desenvolvimento do humano, com liberdade, e dentro dos marcos e recursos culturais.

 

Coletivamente na história e individualmente na biografia, cada humano expressa uma dimensão moral ricamente complexa, reveladora do senso de falta e incompletude quanto o  desejo de completude e a justiça. Personalidades individuais e coletivos se mostram com potências ora diabólica, entrópica, violenta,  como portadoras do Mal, ora pacífico, justo, solidário e amoroso, encarnando o Bem. O diabólico e o divino coexistindo.

 

A Casa comum dos humanos, a terra, originalmente o Jardim de Delícias [Gênesis 1], foi trans-tornada numa “terra  que geme e suporta angustias”, até que finalmente seja redimida do cativeiro da corrupção humana [Romanos 8]. Biblicamente, o homem decaiu de sua condição inicial pela desobediência, na  cobiça do saber-poder, buscando firmar-se autonomamente frente ao Criador. Colheu a angústia como companheira de história, a cisão psíquica, os conflitos relacionais, a injustiça sistêmica, a morte. Ser-de-pecado, naturalmente destina-se à degradação e a ira futura, a não ser que atravesse o caminho apertado e entre pela porta estreita que lhe conduz à Nova Vida. A partir de Cristo é renascido e reorientado para a eternidade como nova criatura. Ser escatológico que sera plenificado em todas as dimensões à semelhança do Filho de Deus, o Homem Perfeito.

 

Ageu Heringer Lisboa, psicólogo, mestre em ciências da religião

1903-  ageuhl@gmail.com –  (11) 98322.9203  –  (19) 98115.3780

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Sobre Ageu

Psicólogo heterodoxo, com pensamento imaginativo e contradições várias. Militante social animado pelos profetas bíblicos. Aprendiz no amor e na caminhada cristã. Peregrino rumo à eternidade, na expectativa do novo céu, nova terra e nova humanidade.
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