Antropologia Bíblica e cuidados com o humano necessitado

Antropologia Bíblica e cuidados com o humano necessitado. Espiritualidade e  trabalho. -Congresso CENPS – Campinas, Mackenzie, 17- outubro 2014

 

Introdução 1- Pacientes e profissionais – contexto e problema

Profissionais na área de saúde lidam com pessoas, grupos e comunidades – que se encontram sob uma particular situação adversa, com variados graus de incômodos e sofrimentos –  decorrentes  de múltiplos fatores biopsíquicos,  políticos, culturais, ambientais.

Pacientes, clientes e beneficiários dos cuidados terapêuticos conformam um complexo sistema relacional atravessado por questões administrativas, financeiras, legais, políticas públicas, éticas, familiares e espirituais.

Com a vivência e a consciência da vulnerabilidade biológica, da dependência de pessoas ou de artefatos, ocorrem processos de subjetivação com potencial de crescimento emocional/espiritual   ou, negativamente o risco de fixar-se em patologias existenciais.

Profissionais e pacientes são sujeitos e objetos da cultura e do contexto terapêutico, sujeitos com a marca do humano. Mas de que HUMANO  falamos?

 

Introdução 2- Questões de antropologia filosófica e teológica.

Que conceitos de  Humano [homem e mulher] presentes em nossas ciências e práticas?  Conversa com (Francis Schaeffer, Hans W. Wolff, Viktor Frankl, Paul Tournier, Carlos Hernández,  Marc-Alain Ouaknin, Dufour, Kursweill).

Debate imprescindível em nossa era pós-tudo, marcada pelo deslumbramento com os poderes tecnocientíficos e formas de comunicação massificadas.

Estamos num mundo e tempo qualitativamente distinto de todas as épocas: em plena Revolução Científica e explosão tecno-eletrônica.  Expansão para o infinitamente pequeno e infinitamente grande.  No mundo que afeta os humanos diretamente atingiu-se: o limite do tempo, com as comunicações instantâneas, em rede universal. Aboliu-se fusos horários e limites da noite/dia.  O absoluto da morte, no planeta, com as bombas nucleares.  Tempo de mutação filosófica e espiritual.

Rompe-se agora com as formas da dar origem a vida ou de prolongá-la com o sequenciamento do DNA, manipulação genética, próteses, concepções de bebês sem intercurso sexual. NOVAS IDENTIDADES reivindicam reconhecimentos e direitos. Do par heterossexual primordial Adão e Eva coexistimos com treze sexos com ajuda de técnicas médicas.

Partindo-se de colônias espaciais com robôs e humanos interagindo com robôs pretende-se colonizar planetas e ganhar o cosmo. Já convivemos com  Ciborg, homem-máquina com carne e chips, sai da ficção para nossas ruas. Raymond Kursweill (MIT), com suas máquinas espirituais, é pioneiro nesta área e defensor da eternização tecnológica dos humanos. Desenha-se alternativas para as “obsoletas estruturas biológicas” de que somos constituídos para  substituí-las por dispositivos inteligentes, autorecicláveis e não-contamináveis.  Na literatura tínhamos O médico e o monstro construindo o Frankstein; cientistas nazistas saíram da ficção testando diretamente em corpos de judeus opções para purificar e aprimorar a raça!

Francis Schaeffer criticava B. F.Skinner e sua teoria do condicionamento aplicado à educação e formatação de um novo mundo com humanos moldados num estado ideal  – Walden TWO – na utópica linha do Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley com simulacros do humano, autômatos com inteligência artificial com felicidade regrada pelo Soma e existência sob poderes impessoal.

Somos máquinas químicas-neuronais, frutos do acaso evolucionário e indo para o vazio ou retornaremos para o estado inorgânico apontado pelo angustiado Freud? Ou algo mais?

Viktor Frankl criticava a psicologia que se pretendia científica  livrando-se da alma e propôs  a logoteoria, reconhecendo  a sede humana por um sentido da vida – marca de sua dimensão imanentemente espiritual, aberta para o transcendente.

Na filosofia e estendendo-se para a psicologia temos a Fenomenologia da vida de Jean-Luc Marion, reagindo à maquinização do humano e tecnização dos relacionamentos com o resgate das experiências primais que respeitam a essência espiritual do humano, um ser marcado pelo Dom  da vida, pelo amor, o que remete a Deus. E Deus não apreensível pela teologia e filosofia, mas pela vivência do amor.

3 – O que é o humano?

Aportes bíblicos: O livro que abre as Escrituras traz-nos a Revelação de Deus, o Eterno, criando a totalidade do existente, do visível e do invisível. O Deus Bíblico não é uma abstração filosófica, Idéia Pura, Absoluta ou uma impessoal Energia Cósmica. É intimamente pessoal,  soberanamente sábio, amoroso e plenamente envolvido com sua criação; projetou-se na vida dos humanos constituídos à sua imagem e semelhança,  conferindo-lhes a mais alta significação, honra e dignidade. O Eterno  inseriu-se na História de maneira particularmente inédita quando fez-se carne, nascendo de Maria, uma mulher palestinense (Jo.1.14 ).

Primeira narrativa: Gn. 1.26 Homem e mulher, Imagem e semelhança da Trindade.  Base primária de nossa identidade, o fundamento antropológico que distingue os humanos como agentes espirituais. Não frutos de um acaso evolutivo impessoal, nem capricho de deuses. Frutos do Desejo divino, portadores de sua marca projetada em nossa  constituição.  Constituição com singular potencia intelectiva, racional e operativa no mundo que  nos qualifica como  espécie  dominante. Não se trata de nenhum preconceito especista  que desconheça a dignidade de outras vidas animais; antes coloca sobre os humanos a responsabilidade de bom governo da terra, de cuidado com o meio ambiente total, de respeito à todas as formas de vida.

Segunda narrativa: Gn. 2.7 Então, do pó da terra [adama], o Senhor formou o ser humano [adam]. O Senhor soprou nas narinas um a respiração de vida, e assim ele se tornou um [Nefesh] ser vivo. Não temos alma. Somos alma.

O barro[adama]  modelado por Deus  [Adam] desde o início aponta nossa existência como essencialmente ligada à biosfera, à terra, coextensivos aos animais e plantas. Mas aspirando o sopro/espírito divino expirado por Deus torna-se distintivamente espiritual, destinado à relação com Deus. Com o pecado [Gn.3] sai do tempo mítico, posto fora do Jardim, lançado na cultura e tempo histórico [cronos o devorador] sujeito aos condicionamentos e  experimenta a morte. Dia-a-dia- impulsionado pela rica instintividade inconsciente. Ser sexual, social, religioso, político e histórico, humanizado através de instâncias socializadoras.

4- Nomenclatura do humano –

Nefesh – Idéia de homem necessitado, faminto [Is. 5.14; Hc 2.5; Pv. 10,3; Sl 107; Jr2.24; Sl 42,2]. Palavra usada para Deus apenas em 3% das ocorrências.

Basar –  O homem efêmero (Gn 17.11-14). poder  limitado. Termo nunca usado para Deus. Carne de animais do sacrifício Levítico.

Ruach – O homem autorizado – noção teoantropológica. Nunca apareceu no Levítico. Instrumento de Javé, ser em movimento [Jó 34.14]. O Ruach se apodera do profeta (Ez. 13.13). É palavra criadora [Sl. 33.6].

Leb – Lebab,   O ser racional : coração, sentimento,  desejo, razão, decisão. Mais frequente expressão bíblica para designar o humano (Sl. 38). Ouvido, língua:  “Como a vida humana é vida racional, o ouvido que escuta e a língua bem orientada são órgãos essenciais do humano”(Wolff).

5- Derivado de sua natureza espiritual, por criação divina, o humano [Adam] apresenta-se como ser-de-razão, sujeito moral, portador de subjetividade, desejante, criativo e capaz de escolhas conscientes, existindo na ordem do simbólico, portador da Imago-Dei. [Adam] ser livre e desejante decaiu de sua condição inicial pela desobediência, com a pretensão de autossuficiência diante do Criador. Colheu a angústia como companheira de história, a cisão psíquica, os conflitos relacionais, a morte (Gn 3). O pecado como tragédia desencadeada pelos humanos é que trouxe a desordem  entre os próprios humanos e na relação com os animais e a natureza criada (Rm 8).

6- Ser-de-pecado, naturalmente destina-se à degradação e a ira futura, a não ser que atravesse o caminho apertado e entre pela porta estreita que lhe conduz à nova vida. Chamados à maturidade, processo sacro e psicodinâmico, segundo Jesus Cristo, o Arquétipo do Humano – o Ecce Homo  proferido por Pilatos – que nos reveste do Novo Humano. A partir de Cristo e de sua ressurreição inicia-se uma nova biologia (Hernández), é renascido e reorientado para a eternidade como nova criatura. Ser escatológico que se plenificará em todas as dimensões à semelhança do Filho de Deus, o Homem Perfeito  – ιδου ο ανθρωπος  (translit: Idou ho anthrōpos –  dito por Pilatos – o Ecce Homo (Jo 19.5) que nos reveste do Novo Humano  gerados com a semente de Deus – Sperma Thou (I Jo.3.9).

Consciente de seus poderes criativos e destrutivos, e os instrumentaliza intervindo em sua própria natureza e no meio ambiente. Consciente da finitude incomoda-se com a morte e aspira a eternidade. A busca da transcendência sempre aparece por meio de interrogações sobre sua identidade (quem somos?), origem (de onde viemos?) e destino (para onde vamos?).

7- Aplicação nas profissões de ajuda. O que fazemos, o que projetamos e criamos, que efeitos produzimos com nosso trabalho?

Em época de apressadas e fragmentadas relações, demandas politizadas, recursos  de saúde desigualmente disponíveis, riscos da impessoalidade técnica e burocrática, disputa vaidosa por status, culto a celebridades, mercantilismo,  condições insalubres de trabalho, remuneração inadequada, qual o diferencial do profissional cristão da saúde?

Profissão – de professio, o que se professa com a vida. O que minha vida constrói e testemunha.  Meu trabalho, minha liturgia, o que realizo para o bem humano e glória de Deus. Não meu tripalium, instrumento de tortura o que me tortura e me contraria, como no sentido pagão do termo. Mas uma dimensão alegre e maduramente assumida de minha semelhança com Deus aquele que trabalha até agora, nas palavras de Jesus.

Isaias 32. 1-4  Sob o reinado do  justo Rei somos príncipes e princesas chamados a ministrar com graça, competência, ternura e responsabilidade, sendo abrigo contra a tempestade e o vento, como rio numa terra seca, sombra no deserto.

Reconhecendo os pacientes como encaminhados por Deus, para nossos cuidados, recebendo-os “como um dos pequeninos de Jesus”, reconhecendo-lhes possuidores da mesma dignidade gloriosa com a qual Deus nos constituiu.

Identificar o sofrimento, a deficiência, a falta e o luto como  experiência única de intimidade com o mistério que cerca nossa existência efêmera. Com empatia contribuir para que ressignifiquem a vida, reconciliem-se com os limites existentes, pratiquem  o perdão, que se abram para o amor.

HOMENAGENS

  • Aos que tem o olhar do samaritano; homens e mulheres que dão exemplo de humanitude em meios religiosos ou laicos: Exército de Salvação, Cruz Vermelha, Renas, Médicos Sem Fronteira, Comunidades Terapêuticas.
  • Aos missionários, cuidadores, voluntários e cada anônimo servo de Cristo nos locais de sofrimento.

Agradecido pela atenção!

Ageu Heringer Lisboa – ageuhl@gmail.com

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Sobre Ageu

Psicólogo heterodoxo, com pensamento imaginativo e contradições várias. Militante social animado pelos profetas bíblicos. Aprendiz no amor e na caminhada cristã. Peregrino rumo à eternidade, na expectativa do novo céu, nova terra e nova humanidade.
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