Jesus e a crise política de seu tempo

No conturbado contexto político e religioso de sua época, Jesus, batizado e introduzido na arena pública pelo destemido profeta João Batista, um típico místico retirante essênio, agrupou e conviveu com discípulos tensionados na disputa de visões e estratégias entre vários partidos. Não era fácil compreender e agir naquele tempo em relação aos poderes dominantes e em luta! Lá estavam os conservadores fariseus e os liberais saduceus, a elite sacerdotal incomodada com o estilo de vida e a mensagem de Jesus.  Algumas vezes aliados aos fariseus, um grupo mais laico dava suporte e governabilidade aos prepostos dos dominadores romanos: os herodianos (Mc 3.6; 12.13). Não é certa a filiação de Judas. Este parece que jogava com os vários grupos. Com um discurso pretensamente social, teve certa influência sobre alguns dos colegas como se vê na reação deles à sua murmuração sobre a unção dos pés de Jesus com um caro perfume, realizado por Maria (Jo 12.1-8; Mt 26.6-12; Mc 14.4-9). Na verdade descobriu-se que era um corrupto, amante do dinheiro e mercenário que entregou  Jesus a  líderes judeus que agiam articulados com autoridades romanas (Mc. 14. 10,11; Jo 12.4,5,6).

Contrapondo-se aos relativamente integrados ao sistema imperial  irrompem os zelosos radicais nacionalistas “zelotes”, adeptos da resistência armada contra os romanos, pela autonomia judaica. Na listagem dos discípulos temos relacionado um Simão, o Zelote, além do Simão Pedro (Mc. 3,18). Certamente este zelote tornou-se fiel ao novo ensino do Reino que não se constrói com a espada. Mas Simão Pedro, uma personalidade impulsiva, quando num gesto instintivo para defesa de Jesus arrancou com a espada a orelha de Malco, servo do sumo sacerdote, atuou segundo o modelo dos resistentes zelotes. Foi repreendido por Jesus que restaurou a orelha ao ferido e proferiu a máxima: “Embainha a tua espada; pois todos os que lançam mão da espada à espada perecerão” ( Mt 26.51-53; Lc 22.49-51; Jo 18.10,11).

Sumariamente julgado e condenado pelo Sinédrio, o senado judaico,  Jesus foi entregue à justiça romana. Pilatos não conhecia detalhes das leis e escatologia dos judeus ficando no fogo cruzado das acusações dos sacerdotes e a defesa insólita de Jesus que falava de um outro reino, e de seu testemunho da verdade (Jo 18.33-38). Por três  vezes afirmou a inocência  de Jesus, reforçado pela palavra de sua esposa que em sonho soubera ser Jesus justo (Mt 27.19, Lc. 23.13-25). Mesmo reconhecendo não haver razão para condená-lo, mostrou-se vulnerável no jogo político. Ao lavar suas mãos, entrou para a história como populista amedrontado (Mc. 15.15; Mt 27.24-26; ). Querendo se preservar no poder entregou  Jesus aos carrascos.

 

Ageu Heringer Lisboa,  psicólogo, 27/03/2016

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Sobre Ageu

Psicólogo heterodoxo, com pensamento imaginativo e contradições várias. Militante social animado pelos profetas bíblicos. Aprendiz no amor e na caminhada cristã. Peregrino rumo à eternidade, na expectativa do novo céu, nova terra e nova humanidade.
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